domingo, 22 de junho de 2014

Superação

Superação


Superação sobre rodas: a história da cadeirante que conheceu Amsterdã sozinha

Fabiola Pedroso combinou uma viagem para Amsterdã com uma amiga. Quando chegou lá, a companhia resolveu ficar em outra cidade com uma paixão momentânea e a deixou sozinha. Fabi, cadeirante, não se deixou abalar e seguiu a viagem.

Atualizado em 21/06/2014
Fabíola Pedroso






Fabíola Pedroso em um dos pontos turísticos de Amsterdã.
Foto: Arquivo Pessoal

Fabíola Pedroso, de 28 anos, é um exemplo para muitas pessoas. Cadeirante, ela não deixa de fazer tudo o que as meninas de sua idade fazem. E entre essas atividades está viajar. No ano passado, ela combinou de ir para Amsterdã com uma amiga. Chegando ao destino, sua companheira de viagem mudou de planos e resolveu ficar com um menino que morava lá. Fabi se viu sozinha em um país desconhecido, sem falar inglês fluentemente. Ela poderia ter pego as malas e voltado mas, encarou a aventura sobre rodas, se encontrou com muita gente e conheceu uma cidade maravilhosa. 

Veja o depoimento na íntegra:
 

"A arrumar a mala e sair por aí. Mesmo sendo cadeirante, me aventuro em vários cantos do Brasil para aproveitar novos destinos, conhecer novos lugares e pessoas. Em junho do ano passado, decidi que era hora de ganhar o mundo e fazer minha primeira viagem internacional. Comecei a pesquisar lugares que me ofereciam independência e hotéis adaptados para me hospedar – o que foi uma tarefa fácil se tratando de Europa.

Conversando com uma amiga de longa data, ela me disse que estava indo na mesma época para a Holanda e que seria divertido se fossemos juntas. Achei ótimo, já que não dominava muito o inglês e ter uma companhia na minha primeira viagem internacional seria incrível. Planejamos tudo juntas: cotamos passagens, hotéis e listamos alguns lugares que queríamos ver. Estava tudo pronto, preparado e pago.

Na ida ela me surpreendeu e contou que o motivo principal de sua viagem era encontrar uma pessoa de que ela gostava e queria ver. Bem, chegamos em Amsterdã e o cara já estava esperando a gente no aeroporto e nos levou até a cidade dele que ficava no interior. Chegando na casa dele, minha amiga disse: Ficarei aqui! Mas e tudo que tínhamos combinado e reservado? Fora que a casa dele cheia de escadas e sem acessibilidade, o que ia me impossibilitar de sair quando eu quisesse , sem contar que era uma casa de estranhos – ele morava com mais pessoas – e eu queria ficar no hostel.

Hora de respirar e seguir em frente

Passada a discussão que a gente teve, eu queria ir embora e ela queria ficar, achava aquilo a pior traição do mundo, não estava acreditando que aquilo estava acontecendo comigo! Não passava pela minha cabeça que a viagem tão sonhada estava se tornando um pesadelo, não queria ficar sozinha, tinha medo, mas em um estalo me enchi de coragem – que eu não tinha - peguei minhas coisas um mapa e disse: me acompanha pelo menos até o trem, e fui rumo ao hostel, que era perto da estação, pendurei a mala na cadeira e fui.

Chegando no hostel, a minha vontade era voltar para casa, tentei remarcar a passagem, mas o valor não compensava, a sensação de viajar 12 horas perdidas também me irritava, tinha que tentar, afinal estava lá.

Eu já me achava corajosa por ter atravessado o mundo e estar em um lugar totalmente novo, mas encarar esse novo país em uma cadeira de rodas e sem dominar a língua, confesso, me bateu um desespero. Mas, meu pensamento era que eu não podia desistir e simplesmente voltar para casa no 2° dia de viagem. A decisão foi ficar e conhecer o que eu pretendia.

O hostel que eu estava era bem bagunçado e, sem a acompanhante no quarto, teria que me mudar. Sentei na frente do computador D-E-S-E-S-P-E-R-A-D-A e achei outro hotel que me oferecia adaptações necessárias e me mudei. Já pensando como faria a mudança com mala e cuia para o outro hotel, conheci um casal de  brasileiros que me ajudaram na mudança. Além disso, eles ficaram comigo por dois dias. Passeamos juntos e conhecemos alguns pontos turísticos como o bar de gelo, o museu do sexo e alguns bares da cidade.


A virada pelo Facebook

Após eles irem embora, fiquei com a sensação que ainda não tinha conhecido quase nada e que precisava de outras pessoas que me mostrassem mais do país. Mas quem? Foi aí que tive uma ideia brilhante: procurar, por meio de uma rede social, brasileiros que estivessem na Holanda e pudessem me acompanhar pelo menos em alguns lugares. Fiz uma postagem em um grupo de discussão dizendo que estava sozinha, que era cadeirante e que queria companhia para passear. E não é que deu certo? Em 10 minutos de postagem muitos brasileiros começaram a aparecer se oferecendo para me encontrar!

A partir daí comecei uma viagem diferente daquela que havia planejado no Brasil. Não ia mais conhecer apenas pontos turísticos, mas a Holanda como é para os holandeses – ou brasileiros que vivem como holandeses. Conheci uma brasileira com filhos que passeou comigo à tarde na feira de flores, nos museus e no moinho de vento – o único que ainda existe por lá, acredite. Outra brasileira, que já morava há 25 anos em Amsterdã, me levou a cafés tradicionais e bares incríveis, onde eu experimentei os melhores drinks e cervejas que eles produzem. Fizemos piquenique à beira de um dos canais, passeios de barcos e andamos em alguns dos diversos parques. Outro brasileiro, me mostrou a vida noturna e as melhores baladas. Ele também me levou para conhecer a Bélgica, fizemos um tour rápido, participamos da rave mais louca que eu já estive. E claro, não deixei de conhecer gringos pelas ruas, nas baladas e estabelecimentos que visitei.


Fabíola e as amigas brasileiras que conheceu na Holanda.
Foto: Arquivo Pessoal

O que ficou depois de tudo

Acabei tendo uma experiência maravilhosa e muito mais rica do que esperava. Descobri que nenhuma viagem sai como o planejado, por mais que você seja organizado. Não tive a felicidade de ir com uma pessoa que estava realmente comigo nessa trip, mas por sorte ou, talvez, por uma ideia genial. Pude ter os momentos mais legais, viver histórias malucas e fazer novos amigos, que estavam comigo e admiravam a minha coragem de estar lá. E para uma coisa serviu essa experiência: ter a certeza que eu me viro em qualquer lugar do mundo, que vale a pena enfrentar meus medos e me desafiar. Procurar meios de encontrar pessoas e não ter medo de se perder é essencial. Se eu tivesse desistido nas primeiras 3 horas após a discussão com minha amiga, jamais teria visto a melhor visão que já tive, encontrar o hotel sozinha!

Viciada em viagens que sou, já estou planejando outro destino para conhecer que vou sozinha de novo aqui do Brasil, mas encontrarei com uma amiga que prometeu não me deixar sozinha nem um segundo –e se deixar, também, sei que, agora, consigo passar por tudo!"

2 comentários:

Carol Damaso disse...

Linda e inspiradora história!!! Amo viajar e sempre é assim, sem agencia eu e meu marido vamos nos virando! Parabéns a Fabiola, que apesar da sua dificuldade, tirou de letra!

Wictor Manoel disse...

Oi Carol!
Amo viajar tbm e nunca por agência...se aventurando!
Amei a história da Fabíola que pouco se importou com a deficiência...a pior deficiência de um ser humano é achar que nada pode fazer e que tudo é impossível!
Bjsssssssssss
Allê Monteiro